Capítulo
1
O pássaro
Tchay parecia uma mulher normal como todas
as outras, mas tinha coisas muito estranhas acontecendo atualmente com ela, já
estava ficando preocupada com a sua saúde, não sabia o que tinha, mas sabia que
era algo muito sério, nunca ouviu falar em algo parecido com o aquilo, não
sabia mais o que fazer, parecia já estar enlouquecendo, morava sozinha em sua
casa, recebia poucas visitas, os vizinhos a achavam muito estranha. Frequentemente
dava a aparência de que estava louca. De vez enquanto dava crises em casa, mas
sempre sozinha, os vizinhos não tinham coragem de entrar na casa dela, do lado
de fora da sua casa via-se sombras escuras e tenebrosas, as pessoas que não
moravam naquela rua que só passavam por ali de passagem tinham certas sensações
ao passar pela aquela casa, mesmo com certa idade a senhora Tchay gostava muito
de passear, não tinha amigos, a não ser sua filha, que morava do outro lado da
cidade. Passeava sozinha pela pracinha que tinha perto de sua casa todos os
dias, precisava se distrair, devido ao seu problema, sua única filha viúva que
morava no outro lado da cidade e sua neta sempre souberam de seu problema.
Era
uma madrugada sombria e obscura, ouviam-se os ruídos da noite, a gata Jamira
que morava na casa vizinha da Sra. Tchay todas as madrugadas ficava caminhando
nos telhados das casas vizinhas e às vezes algumas telhas dessas casas
amanheciam quebradas e os donos desconfiavam dela. Tchay estava em sua casa
sentada em uma poltrona cor de mel, mas quem nunca viu a poltrona pela primeira
vez para ter certeza da cor não acreditava quando ela dizia que era cor de mel,
parecia marrom, muito confortável que estava localizada num canto estreito da
sala que tinha várias telhas de aranha no alto, parecia que havia completado
anos que aquela casa tinha sido limpada. Com o que vinha lhe acontecendo não se
importava mais se sua casa estava limpa ou suja. Estava com as pernas cruzadas
bebendo uma taça com vinho. Já era quinta-feira e desde o início da semana que
a senhora Tchay ficava sentada naquela poltrona pela madrugada sombria e obscura
que se encontrava ao seu redor, tomando uma taça cheia de vinho. A garrafa
ficava em cima da mesinha ao lado da poltrona para caso não matasse sua
vontade. O vinho da garrafa já se encontrava pela metade, pois só tomando vinho
ela se sentiria mais segura de seu problema.
A
Senhora Tchay antes de tudo que estava acontecendo com ela, acontecer, era uma
professora muito dedicada ao trabalho, amava demais os alunos que tinha, mas
começou tendo alucinações e pesadelos fortes com as pessoas que amava. Depois
não podia sair na rua que sentia dores estranhas todas as horas em vários
lugares. Então se aposentou e deixou sua profissão que amava tanto de lado. Já
até tinha esquecido o que era ser uma professora, ela não sabia controlar sua
doença, ou coisa parecida, porque não tinha doença da ciência que tivesse os
sintomas que a Sra. Tchay tinha, mas em sua cabeça era sim uma doença.
Após
ter se enchido de vinho foi dormir, pois já não ligava se fizesse mal à saúde,
para ela não tinha mais saúde e achava que nunca mais iria ter, já havia
perdido as esperanças quando seu médico o Dr. Guilherme falou em sua primeira
consulta, que a doença era rara e inexistente nos estudos da ciência e não era
detectada nenhuma doença em seus exames.
Quando
o dia amanheceu Tchay já acordou escutando chiados estranhos, pensava que era
na rua algo ou alguém que estava fazendo tal chiado, mas não, ao se levantar da
cama e ver pela janela que não havia nada na rua percebeu que era dentro de sua
casa, aliás, dentro de sua mente. Tomou um banho na suíte do seu quarto, trocou
de roupa e saiu de seu quarto em direção à cozinha esquecendo a toalha em cima da
cama. Eram dez horas da manhã e ela ainda iria fazer o café da manhã, na
verdade fazia na hora em que quisesse, pois morava sozinha. Então preparou seu
café da manhã e comeu como uma loba, porque estava com muita fome, após lavar
toda a louça que tinha sujado voltou ao seu quarto para pegar seu celular e viu
a toalha que havia esquecido em cima da cama, pegou-a por uma ponta e jogou em
cima do boxe do banheiro.
Ao pôr os pés na rua percebia-se que o céu
perdia seu azul e as nuvens cinza tapavam o sol, ficava um tempo nublado, mas
um nublado diferente. Foi à pracinha ali perto de sua casa, de longe se ouviam
os risos das crianças brincando em brinquedos da praça, correndo uns atrás dos
outros, via-se também pássaros voando por cima das árvores cheios de energia,
mas quando Tchay colocou os pés na praça, as crianças perderam o ânimo, as
árvores pararam de se balançar, os pássaros pararam de voar com exceção de um,
que ficou sobrevoando pelas duas grandes árvores em frente ao banco que Tchay
sentava todos os dias, mas mesmo assim ficou tudo quieto em cima das árvores,
as crianças pediam aos seus pais para ir embora quando avistavam aquela
senhora, mesmo não a conhecendo.
Tchay
era uma senhora de bom coração não tinha mágoa com ninguém por se afastarem
dela, achava que quem chegasse perto sentia alguma coisa, parecia que todos
sabiam de seu problema, chegou até a pensar que a natureza também soubesse.
Quando chegava à praça e sentava no banco branco que era acostumada a se sentar
todos os dias, olhava ao seu redor e via que todos que estavam ali tinham ido
embora. Ela passava a maior parte do tempo naquela pracinha, a maioria dos dias
não almoçava para ficar ali, não sentia fome ao meio dia, na verdade até que
sentia um pouco, mas não ia para casa, pois preferia ficar ali, se sentia bem
quando estava na pequena praça e tudo o que ela estava precisando era de se
sentir bem. A Sra. Tchay viu que somente um passarinho estava sobrevoando naquela
praça, naquele momento, até que ele foi se aproximando dela, estava muito
surpresa, esticou o seu braço direito com o dedo apontador também esticado,
então o pássaro pôde pousar no seu dedo.
—
Você é diferente de todos os passarinhos que conheço! — falou a senhora Tchay
abaixando a cabeça e apertando os olhos para vê-lo direito. — O único que
O
passarinho começou a cantar uma musiquinha, mas em instantes parou.
—
Porque você é diferente dos outros pássaros e das outras pessoas? — perguntou
parecendo esperar uma resposta. — É mesmo, você não fala, mas hoje não duvido
mais de nada! — sussurrou tirando os olhos do passarinho por alguns instantes
para ver se alguém a observava, porque se sim, iam pensar que era loca por
estar conversando com um pequeno passarinho, apesar de pensarem que era louca,
não iam mais ter dúvidas. — A minha vida não está sendo fácil! — exclamou
novamente de olhos para o passarinho. — Ninguém fala mais comigo, todos olham
com olhares estranhos para mim, estou enlouquecendo! Até todos da pracinha saem
quando estou aqui, mesmo sem me conhecerem para saberem como eu sou! — explicou
a Sra. Tchay com mais detalhes. — Os pássaros também param de voar e cantar,
exceto você! As árvores param de se balançar e o vento do horizonte para de
bater nelas! Não aguento mais isso! — falou com mais detalhes ao pequeno animal,
tendo a mera impressão de que ele está entendendo alguma coisa.
O
passarinho, que Tchay achava ser diferente e que estava em suas mãos,
simplesmente bateu asas e voou sem ao menos olhar para trás.
—
Siga seu caminho! — gritou Tchay olhando para cima com tristeza, porque via
todos felizes e normais menos ela.
Por
volta das duas horas da tarde ela se levantou do banco e saiu da pracinha em
direção à sua casa, quase todas às vezes, olhava para trás, via as crianças
quererem voltar, via os cantos dos pássaros novamente e ouvia o vento que vinha
do horizonte bater firme nas árvores novamente e assim fazendo todos ficarem
alegre sem ela, com isso seguia para sua casa mais constrangida com a situação
e com a vida que estava tendo. Em outro canto de sua casa havia outra mesinha
cor de vinho com várias velas em cima da toalha que estava sobre a mesa. Quase
todas as tardes ela acendia todinhas sem exceção de uma, e ficava rezando e
pedindo a Deus que tirasse aquela doença dela, pois mais sedo ou mais tarde ia
acabar enlouquecendo.
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